Apesar de política indefinida, empresas testam mercado de carros elétricos no Brasil
25 de setembro de 2017 – 16:42 | Coment√°rios desativados

Enquanto o governo n√£o define uma pol√≠tica para carros el√©tricos e h√≠bridos, novas empresas do ramo chegam para testar o mercado brasileiro. A Hitech Electric, do brasileiro Rodrigo Contin, iniciou em maio a importa√ß√£o de …

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Zona restrita

Submitted by on 22 de agosto de 2017 – 17:17No Comment

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H√° poucos dias completaram-se sessenta anos desde a assombrosa vit√≥ria de Juan Manuel Fangio em N√ľrburgring, 1957, quando o maestro finalmente revelou ao mundo toda a dimens√£o de sua incr√≠vel reserva t√©cnica, adentrando uma zona m√≠stica e ainda pouco conhecida nas fronteiras de nossa humanidade, sobre a qual n√£o tinha controle absoluto.

Imediatamente ap√≥s terminar a corrida, Fangio j√° dizia que jamais pilotaria daquela forma novamente. Ele confessaria anos mais tarde ter ficado duas noites sem dormir, ainda sob impacto da experi√™ncia e dos riscos que havia assumido, como que assustado por ter de alguma forma perdido o controle. N√£o do carro, longe disso, mas de si mesmo, ainda que o resultado final sugira que, na verdade, estejamos falando apenas de um n√≠vel superior de controle, cujo acesso permanece um mist√©rio. De qualquer modo n√£o parece ser coincid√™ncia que o pentacampe√£o tenha feito apenas mais quatro apari√ß√Ķes no campeonato mundial, sem jamais voltar a vencer.

Lendo coment√°rios na internet a respeito daquele dia, n√£o foram poucas as pessoas tra√ßando paralelos com a famosa ‚Äúexperi√™ncia do t√ļnel‚ÄĚ descrita por Ayrton Senna com riqueza de detalhes, a respeito de seu enigm√°tico desempenho durante o segundo treino classificat√≥rio para o GP de M√īnaco de 1988. E a analogia certamente se justifica, para al√©m de qualquer simpatia ou antipatia pessoal. N√£o apenas pela robustez da pilotagem apresentada, mas pela mesma sensa√ß√£o de medo, de fragilidade, de perda de controle, de ter adentrado alguma dimens√£o desconhecida. O pr√≥prio Senna foi o primeiro a afirmar que se assustou e n√£o voltou a andar r√°pido outra vez naquele dia.

Sempre existiu, no entanto, uma profunda contradi√ß√£o unindo estes dois epis√≥dios que o tempo separou por 29 anos. Afinal, apesar das limita√ß√Ķes t√©cnicas da √©poca e dos enormes desafios representados pela extens√£o do Inferno Verde, foi poss√≠vel montar um resumo audiovisual de 22 minutos daquela corrida, incluindo imagens preciosas e esclarecedoras sobre o desastroso pit stop que atrasou Fangio em mais de um minuto, bem como outras de sua vigorosa ca√ßa √†s ferraris de Peter Collins e Mike Hawthorn. Por outro lado, jamais foram vistas imagens daquele treino televisionado 29 anos depois, que teria de estar arquivado pela geradora e tamb√©m em grava√ß√Ķes caseiras nos pa√≠ses que exibiam a qualifica√ß√£o naquela altura.

Pessoalmente, sempre considerei este um dos grandes mist√©rios da cobertura automobil√≠stica de nossa era. Tive esperan√ßas de ver parte dessas imagens quando do lan√ßamento do filme Senna, e foi grande minha decep√ß√£o ao notar que, mais uma vez, a experi√™ncia era narrada tendo como pano de fundo grava√ß√Ķes onboard colhidas em 1989 e 1990. Simplesmente n√£o fazia sentido acreditar que tais registros n√£o existissem. Mas, se existiam, por que diabos ningu√©m os utilizava, mesmo quando as fontes em quest√£o certamente tinham acesso a todos os arquivos prim√°rios?

Bom, a resposta demorou, mas finalmente me foi revelada na semana passada. Para alguns de vocês, inclusive, é bem possível que tenha chegado antes disso, pois já faz algum tempo que a página de vídeos Daily Motion finalmente disponibilizou a transmissão daquela sessão. Era um sonho realizado, mas ao ver o vídeo veio a ducha de água fria: a transmissão simplesmente comeu uma mosca gigantesca e perdeu a parte mais importante da impressionante (e curta) sequência de voltas que entraria para a história.

De fato a situa√ß√£o beira o inacredit√°vel, pelo grau de insensibilidade. Senna, afinal de contas, havia assinalado a pole position nas duas corridas j√° disputadas naquela temporada, e estava visivelmente r√°pido, abrindo uma dist√Ęncia enorme em rela√ß√£o aos demais conjuntos, como se fossem carros de categorias diferentes. O cron√īmetro logo indicaria que ele estava girando ao menos cinco segundos mais r√°pido que a imensa maioria dos pilotos, tr√™s segundos mais r√°pido que o segundo colocado, mas ainda assim, a geradora focou em carros mais lentos ou ficou mostrando quem entrava ou sa√≠a dos boxes. Um absurdo.

‚ÄúAh, ent√£o quer dizer que a transmiss√£o n√£o jogou nenhuma luz sobre o que se convencionou falar a respeito daquele dia?‚ÄĚ Bom, isso tamb√©m n√£o √© verdade. O v√≠deo nos fornece informa√ß√Ķes importantes sobre o epis√≥dio, e permite at√© mesmo tra√ßar um mapeamento volta a volta da famosa experi√™ncia, ainda que a volta definitiva tenha sido testemunhada integralmente apenas pelo pr√≥prio Senna.

Vamos à cronologia, portanto.

Logo após as imagens dos primeiros carros a irem para a pista, bem no início da sessão, a transmissão corta para Prost entrando em seu carro. Com menos de um minuto de vídeo ele já estava no cockpit. O francês teve muito mais tempo de pista do que Senna ao longo do treino.

A primeira volta cronometrada foi de Piquet, virando 1min31s4. Senna aparece pela primeira vez depois de 4min30s de v√≠deo, ainda nos pits, mas j√° dentro do carro. Em seguida a transmiss√£o corta para Prost, j√° em volta r√°pida. O trecho entre o Cassino e a Mirabeau estava sob bandeira amarela, provocada pela March de Ivan Capelli. Ap√≥s uma volta r√°pida, Prost aborta a seguinte. C√Ęmeras seguem com o franc√™s at√© 11min45s, quando s√£o cortadas para mostrar volta r√°pida de Derek Warwick, que seria destru√≠da pelo companheiro Eddie Cheever.

Com 13min53s a imagem pisca muito brevemente uma parcial dos tempos. Senna, ainda sem ir para a pista, tem 1min26s464, Prost tem 1min27s520 e Mansell aparece em terceiro com 1min28s475. Depois de 14 minutos e 20 segundos a imagem volta a mostrar Senna, ainda nos boxes, mas agora pronto para sair. Aos 15 minutos e 30s ele entra na pista, e as c√Ęmeras o acompanham durante toda a volta de aquecimento, mostrando inclusive o momento em que ele estraga a volta do que me pareceu ser a EuroBrun de Oscar Larrauri. Ayrton abre sua primeira volta em 17min20s, mas a aborta pouco depois. Abre de novo em 18min53s, mas alcan√ßa a March de Capelli e a Ligier de Arnoux na segunda parte dos esses da piscina. Seu tempo nesta volta √© de 1min27s015, que o deixava atr√°s apenas dele mesmo. Considerando o tempo perdido na parte final da pista, √© seguro afirmar que teria virado na casa de 25 alto se n√£o tivesse sido atrapalhado.

A essa altura Senna e Prost ainda continuavam com suas melhores marcas de sexta, mas Mansell j√° havia melhorado para 27s704. Como a Ligier ainda estava √† frente, Senna d√° mais uma volta lenta. A meio da volta ele acelera e supera Arnoux. Gira em 1min39s e abre a volta com 22 minutos de sess√£o, sendo atrapalhado por uma Scuderia Italia logo na Sainte Devote. A transmiss√£o ent√£o corta para a Ligier de Arnoux, nos boxes, e depois para Luis Perez-Sala, e ent√£o para Stefan Johansson entrando nos boxes. Neste momento √© poss√≠vel ver que Prost tamb√©m estava na pista. A tev√™ n√£o d√° o tempo de volta obtido por Senna nesta volta, mas a transmiss√£o o mostrou por duas voltas seguidas contornando a Sainte Devote, e a ado√ß√£o de um referencial para cronometragem manual indica que ele virou muito perto de 1min25s0. Um tempo que j√° teria lhe valido a pole position. Ele continua andando r√°pido e a c√Ęmera posicionada no topo da Beau Rivage mostra Senna seguido por uma Larrousse, sem esclarecer se ele teve que fazer a ultrapassagem durante a volta anterior, ou se o carro ganhou a pista quando o brasileiro j√° rasgava a reta. Eddie Cheever est√° uns cinco segundos √† frente, e quando Ayrton mergulha no Cassino topa com uma Tyrrell andando devagar. A c√Ęmera corta antes que saibamos se perdeu tempo para desviar.

A transmiss√£o se perde, e quando reencontra Senna ele j√° abortou a volta, ap√≥s ter superado Cheever. Ele torna a abrir volta com 25 minutos de sess√£o, mas a tev√™ inexplicavelmente acompanha o Arrows. O brasileiro est√° nitidamente voando, e quando Eddie entra na reta do t√ļnel, o brasileiro j√° n√£o pode mais ser visto. Ele torna a aparecer brevemente quando Cheever contorna a chicane, o McLaren j√° mergulhando na Tabac. Os cron√īmetros revelariam mais tarde que a volta de Cheever lhe valeu a quinta posi√ß√£o naquela altura, dando a dimens√£o do qu√£o r√°pido Senna estava: o brasileiro havia virado uma volta sensacional em 1min24s439, enquanto Prost continuava com 1min27s520. Apesar de ter ficado mais tempo na pista, o bicampe√£o estava levando mais de tr√™s segundos de seu companheiro no circuito mais curto do calend√°rio!

Senna só volta a ser visto brevemente no topo da Beau Rivage, quando Cheever começa a subir. Neste momento, a March de Gugelmin surge entre Senna e Cheever, mas não sabemos se Ayrton precisou fazer a ultrapassagem durante a volta anterior. Por alguma razão Senna aborta a volta, mas não pode andar muito devagar porque Cheever está logo atrás. Ele vira na casa de 1min33s e abre a volta próximo aos 27min55s de sessão. Esta vai ser a grande volta de sua vida, mas a tevê corta para a Benetton de Nannini nos boxes, tão logo o brasileiro mergulha na Sainte Devote, e não mais o busca. E foi isso. Ele baixa mais meio segundo na nona volta do jogo de pneus e alcança a incrível marca de 1min23s998, sem que saibamos se pegou tráfego nesta ou na volta anterior, nem que possamos ver onde buscou este tempo, ou o quão perto passou dos rails. Quando a transmissão atualiza os tempos, mostra que Prost também havia baixado. Agora ele tinha 1min26s974 e estava a 2s976 do rival, com carro idêntico.

Se houvesse pneus de classifica√ß√£o em 1988, este provavelmente seria o panorama final do treino. Com pneus de corrida, no entanto, Prost teve tempo suficiente para buscar uma volta em 1min25s425 j√° no fim do treino, num esfor√ßo em que a √ļnica coisa em jogo era reduzir o preju√≠zo √† pr√≥pria imagem, e o ganho de moral por parte do advers√°rio.

A História, claro, nos mostra que ele fez mais do que isso no dia seguinte, usando sua genialidade para reverter a força do adversário contra ele próprio. Essa parte, no entanto, todos já tínhamos visto.

Passada a frustra√ß√£o por descobrir que jamais verei a fabulosa volta em 23s998, minha inata tend√™ncia a buscar significados po√©ticos onde talvez n√£o existam me trouxe duas sensa√ß√Ķes √† mente. A primeira nasceu durante a volta em 1min24s, na qual as c√Ęmeras acompanharam Cheever, quando me dei conta que Senna s√≥ n√£o foi visto porque correu demais, andou mais r√°pido do que a transmiss√£o.

J√° a segunda brotou quando a transmiss√£o ignorou sua melhor volta, ainda na primeira curva. Foi quando me lembrei que vimos Fangio em N√ľrburgring, mas n√£o o vimos decolando nas quatro rodas no miolo impenetr√°vel do circuito. Quando lembrei que temos imagens de Monza 67, mas n√£o vimos as voltas m√≠ticas de Jim Clark naquela prova. Quando me lembrei que tamb√©m n√£o vimos o auge de Jackie Stewart, na mesma pista italiana seis anos depois, ou a disputa entre Varzi e Nuvolari em M√īnaco 1932.

Talvez seja apenas meu cérebro em negação, mas no fundo resta a sensação de que não me cabe ver nada disso. Talvez não seja digno, sei lá. Ou talvez lendas não devam mesmo ser vistas, mas eternamente imaginadas, sentidas, cultuadas, respeitadas.

Talvez, inclusive, este seja um requisito para que sejam lendas.

Talvez seja melhor assim.

Texto: Marcio Madeira

Fonte: GP Total

Rod√£o

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